A Argentina enfrenta um cenário de forte estresse cambial, com o dólar paralelo atingindo 1.300 pesos, representando um aumento superior a 20% em relação à taxa oficial do Banco Central, que gira em torno de 1.100 pesos. Esse quadro se deve, em grande parte, às incertezas sobre as negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que discute um novo acordo de US$ 20 bilhões. Entre as exigências do Fundo está a flexibilização da política cambial, que atualmente opera sob um rígido controle de câmbio fixo, conhecido como “cepo”.
O governo de Javier Milei, que defende a eliminação das restrições cambiais, busca ampliar as reservas internacionais, atualmente em um saldo líquido negativo entre US$ 6 bilhões e US$ 8,5 bilhões. No entanto, mesmo com um novo aporte do FMI, grande parte dos recursos seria utilizada para cobrir compromissos do acordo anterior, o que limita o impacto positivo sobre a economia. Paralelamente, a administração argentina tenta garantir suporte financeiro adicional por meio do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
O agravamento da crise cambial também gera impactos diretos sobre a inflação, que já ultrapassa 250% ao ano, corroendo o poder de compra da população e dificultando a recuperação da economia. Com a disparada do dólar paralelo, os preços de bens e serviços são reajustados constantemente, alimentando ainda mais o ciclo inflacionário. Empresários e investidores aguardam com apreensão as próximas medidas do governo, que busca equilibrar a necessidade de estabilização monetária com sua agenda de reformas pró-mercado.
Outro ponto crítico é o impacto da volatilidade cambial sobre o setor de comércio exterior. Importadores enfrentam dificuldades para acessar divisas estrangeiras, enquanto exportadores são pressionados por um câmbio oficial desvalorizado, que reduz sua competitividade no mercado internacional. Além disso, a instabilidade no peso argentino pode afetar a relação comercial com parceiros estratégicos, como o Brasil, que acompanha de perto os desdobramentos da crise diante do risco de contágio econômico.
A crise cambial ocorre em um momento crítico, com a aproximação das eleições parlamentares de novembro, que serão fundamentais para a viabilização das reformas estruturais de Milei. A possibilidade de um câmbio mais flutuante, como o modelo de bandas utilizado pelo Brasil nos anos 1990, é vista como uma alternativa para reduzir a distorção entre o câmbio oficial e o paralelo. No entanto, a adoção dessa política dependerá do resultado das negociações com o FMI e da capacidade do governo de restaurar a confiança dos mercados e da população.
Fontes:
https://www.reuters.com/argentina-cambial-estresse-fmi-2025
https://www.infomoney.com.br/mundo/acordo-com-fmi-eleicoes-e-reservas-baixas-do-bc-argentina-vive-estresse-cambial/