O incêndio que consome o navio de carga Morning Midas há mais de oito dias na costa do Alasca evidencia os riscos e complexidades do transporte marítimo de veículos elétricos, que carregam baterias de íons de lítio altamente inflamáveis.
Por que o incêndio não pode ser apagado?
O principal obstáculo para extinguir o fogo está relacionado à natureza química das baterias de íons de lítio presentes nos veículos elétricos a bordo. Essas baterias armazenam grande energia em espaço compacto, mas quando danificadas ou expostas a falhas internas, podem entrar em “fuga térmica” — reação em cadeia que gera calor intenso, inflamando baterias próximas e tornando o incêndio auto-sustentável.
Além disso, o fogo libera gases tóxicos e inflamáveis, dificultando o combate próximo e tornando o ambiente extremamente perigoso. Métodos convencionais como água ou espuma podem ser ineficazes ou até agravar o incêndio. A água salgada do mar pode corroer os invólucros das baterias, elevando ainda mais o risco de explosões.
As baterias de íons de lítio presentes nos veículos elétricos são conhecidas por sua alta densidade energética, o que as torna especialmente suscetíveis a falhas térmicas. Quando uma bateria entra em “fuga térmica”, ela aquece rapidamente, liberando gases inflamáveis e podendo causar explosões. Essas reações em cadeia podem iniciar incêndios que se autoalimentam e são extremamente difíceis de extinguir.
No caso do Morning Midas, as condições do ambiente marítimo agravam ainda mais o problema. A água salgada pode corroer os invólucros das baterias, aumentando o risco de vazamentos e explosões adicionais. Além disso, o fogo libera fumaça densa e gases tóxicos que impedem o combate direto e representam riscos graves para as equipes de combate e para o meio ambiente.
Por isso, o incêndio é considerado um dos mais complexos no cenário marítimo atual, exigindo cautela extrema e estratégias específicas para proteger vidas e o meio ambiente.
Ações e providências tomadas
Evacuação imediata: A tripulação, composta por 22 pessoas, abandonou o navio de forma segura em botes salva-vidas e foi resgatada por uma embarcação comercial próxima, sem registros de ferimentos.
Monitoramento constante: A Guarda Costeira mantém vigilância contínua, a uma distância segura, para acompanhar o desenvolvimento do incêndio e prevenir riscos a outras embarcações ou ao meio ambiente.
Equipe de resgate especializada: Uma equipe de especialistas só conseguiu chegar ao local vários dias após o início do fogo para avaliar e iniciar a investigação.
Investigação aberta: A causa exata do incêndio ainda está sendo apurada, e embora o foco inicial sejam as baterias de veículos elétricos, não há confirmação definitiva.
Prevenção ambiental: Medidas de contenção para evitar vazamento de substâncias tóxicas ou poluentes no oceano estão em andamento, para minimizar danos ambientais na região.
Desafios técnicos e logísticos
As baterias de íons de lítio são difíceis de apagar por sua alta reatividade e porque podem gerar incêndios múltiplos e interligados. Não há extintores adequados disponíveis em embarcações comuns para esse tipo de fogo, o que limita as opções de combate.
O fogo em ambiente marítimo, ainda mais próximo à água salgada, representa um risco aumentado devido à corrosão acelerada das baterias, que pode gerar explosões imprevisíveis.
Impactos comerciais e no mercado
O Morning Midas tinha como destino o porto de Lázaro Cárdenas, no México, onde o mercado de veículos elétricos vem crescendo rapidamente, com mais de 60% dos veículos importados vindo da China, segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA). O incêndio coloca em risco a entrega de uma grande quantidade de veículos e acende alertas sobre a necessidade de melhorar as normas de transporte dessas cargas sensíveis.
Contexto histórico
Casos semelhantes, como o incêndio do navio Felicity Ace em 2022, que também transportava veículos com baterias de íons de lítio, mostram a dificuldade de combater incêndios prolongados e as consequências ambientais e comerciais graves.
Além disso, o risco dessas baterias tem sido reconhecido em outras modalidades, como na aviação, levando a restrições reforçadas no transporte aéreo de baterias portáteis e veículos elétricos. Esse incidente reforça a importância de desenvolver tecnologias e protocolos específicos para o transporte seguro de baterias de íons de lítio, proteger o meio ambiente e garantir a segurança das tripulações e das cadeias globais de suprimentos.