As tarifas de frete marítimo na rota transpacífica registraram um salto expressivo nas últimas semanas, subindo cerca de 25% por contêiner de 40 pés (FEU) entre meados de abril e esta semana. O aumento é impulsionado por um acordo firmado entre China e Estados Unidos para reduzir tarifas comerciais, o que deve gerar uma corrida de exportações ao longo do período de trégua de 90 dias.
Antes do anúncio, o agravamento da guerra comercial já havia afetado fortemente os fluxos entre os dois países. As exportações chinesas para os EUA caíram 21% no mês passado, e as importações recuaram quase 14%. A gigante do setor Maersk estimou uma queda de 30% a 40% no volume transportado entre China e EUA em abril. A desaceleração também atingiu a carga aérea, com redução de voos de frete na semana encerrada em 11 de maio — dias antes do anúncio do novo pacto.
Com a trégua confirmada, a expectativa é de um aumento rápido da demanda, que poderá pressionar ainda mais os preços em meio à aproximação da alta temporada, período em que os embarques para o mercado americano tradicionalmente crescem. Segundo relatório do banco Jefferies divulgado nesta terça-feira (13), fornecedores chineses já estavam retomando os embarques mesmo antes do anúncio oficial, o que ajudou a impulsionar a tarifa média de frete na rota transpacífica.
Essa reversão é vista como um alívio para o setor, que enfrentava um período prolongado de tarifas em queda. O índice global de frete em contêiner (Drewry World Container Index) caiu quase 20% desde o início do ano, atingindo o menor patamar desde dezembro de 2023. De acordo com os analistas do Jefferies, “o setor de contêineres está posicionado para uma melhora significativa nas tarifas à vista com base em dois fatores fundamentais: retomada dos volumes normais e início da alta temporada”. Além disso, afirmam que, com a capacidade mais restrita na rota transpacífica, “as transportadoras estão em posição de elevar significativamente os preços”.
Com os volumes voltando a crescer, operadores logísticos já relatam sobrecarga em terminais asiáticos e início de gargalos na alocação de espaço nos navios. O número de blank sailings (viagens canceladas) deve diminuir nas próximas semanas, à medida que armadores tentam otimizar a capacidade. No entanto, reposicionar embarcações de outras rotas pode levar mais de 40 dias, o que limita a resposta de curto prazo da indústria ao pico de demanda.
Alguns operadores avaliam a trégua como um passo positivo, mas que exige ação rápida. “Esperamos que isso abra caminho para um acordo permanente que proporcione a previsibilidade de longo prazo que nossos clientes precisam”, declarou um porta-voz da Maersk. “Por enquanto, nossos clientes ganharam 90 dias de clareza com tarifas reduzidas, e estamos trabalhando intensamente para ajudá-los a aproveitar essa janela.”
Economistas também observam que o movimento pode impactar fluxos comerciais em outras regiões. As exportações chinesas para Vietnã e Tailândia dispararam nos meses anteriores, refletindo o redirecionamento de mercadorias para driblar tarifas mais altas. Agora, com a redução de cerca de 115 pontos percentuais nas tarifas na rota direta entre China e EUA, essa triangulação pode perder força, provocando um novo rearranjo nos fluxos globais.
O momento ainda é de cautela, pois a trégua tem prazo determinado. Caso não haja acordo permanente, o mercado poderá enfrentar nova rodada de volatilidade e incerteza nos embarques, tanto na Ásia quanto nas Américas. O setor, por ora, tenta aproveitar ao máximo a janela aberta pela diplomacia comercial e se preparar para um segundo semestre de forte movimentação.