O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentou no dia 2 de abril de 2025 um pacote de tarifas comerciais, batizado de “Dia da Libertação”, que promete mudar o panorama do comércio internacional. A medida prevê a aplicação de tarifas recíprocas a todos os países que, segundo o governo americano, impõem barreiras desproporcionais aos produtos dos EUA. Essa proposta representa uma ruptura com o sistema multilateral de comércio da Organização Mundial do Comércio (OMC), que visa garantir um tratamento igualitário entre as nações. O foco principal da mudança é retaliar tarifas caso a caso, com base nas tarifas que cada país aplica aos produtos americanos. Essa mudança gera grande incerteza econômica e tende a afetar principalmente países com tarifas de importação mais altas, como o Brasil, que já foi mencionado por Trump em relação às suas tarifas consideradas “injustas”.
Apesar de o Brasil não ser um dos alvos diretos dessa nova política de tarifas no curto prazo, os especialistas alertam para os efeitos indiretos. O país tem uma tarifa média de 11,3% sobre os produtos dos EUA, enquanto os EUA cobram em média 2,2% sobre os produtos brasileiros. Isso coloca o Brasil em um risco potencial, especialmente se os EUA decidirem aplicar tarifas retaliatórias mais pesadas. O impacto mais significativo, no entanto, seria no canal financeiro. O aumento da inflação nos EUA, como consequência das tarifas, pode forçar o Federal Reserve a manter as taxas de juros mais altas por mais tempo. Isso elevaria os custos financeiros, pressionando a economia brasileira com o encarecimento do crédito, desvalorização cambial e aumento da inflação interna. Para o Brasil, a maior preocupação não está tanto nas exportações diretamente afetadas, mas na forma como a economia global reagirá a essas novas tarifas e como isso impactará o ambiente financeiro global.
Os setores brasileiros mais expostos a essa mudança incluem aeronaves, aço, petróleo, café e celulose, produtos que representam uma parte significativa das exportações do Brasil para os EUA. Em um cenário extremo, as tarifas elevadas podem reduzir as exportações brasileiras em até US$ 6,5 bilhões, o que causaria uma depreciação do real de aproximadamente 4%, além de pressionar a inflação doméstica. Um estudo do Bradesco ainda estimou os impactos de uma possível retaliação brasileira com tarifas de 25% sobre os produtos americanos, o que resultaria em uma redução de US$ 4,5 bilhões nas importações e um aumento na inflação de até 0,3 ponto percentual. No entanto, o Brasil possui uma capacidade limitada de retaliar devido ao seu equilíbrio comercial com os EUA e à sua situação fiscal restrita. O governo brasileiro tem adotado uma postura cautelosa e de diálogo, aguardando os detalhes da implementação do pacote antes de tomar medidas mais drásticas.
Além disso, o Brasil enfrenta desafios relacionados às barreiras não-tarifárias, que, de acordo com o BTG Pactual, afetam 86% das importações brasileiras. Essas restrições podem ser usadas pelos EUA como justificativa para tarifas adicionais, agravando ainda mais a situação do comércio bilateral. Mesmo sem uma retaliação direta, a postura do governo americano pode impactar o Brasil de forma significativa. Nesse cenário, a estratégia brasileira será de precaução, mantendo a parceria com os EUA e buscando evitar qualquer atrito que prejudique as exportações brasileiras para esse importante mercado. A capacidade de negociação e a preservação das exportações brasileiras para os EUA serão fundamentais para minimizar os impactos dessa política de tarifas.