Por 70 a 0, plenário do Senado aprova Lei da Reciprocidade Econômica em resposta a medidas de Trump

O plenário do Senado aprovou nesta terça-feira, por unanimidade, a Lei da Reciprocidade Econômica, permitindo que o Brasil imponha sanções comerciais a países que adotem políticas consideradas prejudiciais à competitividade dos produtos nacionais. A proposta, aprovada por 70 votos a 0, surge como uma resposta direta ao novo pacote tarifário imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que elevou drasticamente as alíquotas sobre uma série de importações, incluindo aço e produtos agropecuários brasileiros. Além disso, a medida legislativa brasileira visa antecipar eventuais restrições impostas pela União Europeia sobre a exportação de carne bovina e soja, especialmente aquelas ligadas a critérios ambientais mais rigorosos. Com essa nova legislação, o governo brasileiro passa a ter mais flexibilidade para reagir economicamente a sanções e políticas protecionistas externas, fortalecendo sua posição em negociações comerciais internacionais.

A nova política tarifária dos Estados Unidos, anunciada no início deste ano como parte da estratégia de Trump para fortalecer a indústria nacional, atingiu em cheio países exportadores, incluindo o Brasil. O pacote tarifário elevou em 25% as taxas sobre o aço e o alumínio importados e impôs restrições adicionais sobre commodities agrícolas, como etanol e carne bovina. O argumento da Casa Branca é que essas medidas são necessárias para proteger os empregos americanos e reduzir o déficit comercial do país, além de desestimular a importação de produtos que possam competir diretamente com a produção interna. No entanto, para o Brasil, as novas tarifas representam um grande desafio, já que os Estados Unidos são um dos principais destinos do aço brasileiro e um mercado relevante para produtos do agronegócio. A nova legislação aprovada pelo Senado brasileiro busca criar mecanismos que permitam responder a essas restrições de forma proporcional, estabelecendo taxações recíprocas sobre produtos americanos e suspendendo concessões comerciais e de investimentos.

Atualmente, as regras da política comercial brasileira não permitem que o país imponha tarifas unilateralmente, o que limita sua capacidade de retaliação em disputas comerciais. Com a nova lei, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) poderá agir de forma mais ágil para aplicar contramedidas quando identificar que barreiras comerciais externas estão prejudicando as exportações brasileiras. Além disso, a Camex poderá suspender benefícios a empresas estrangeiras que operam no Brasil, dificultar a concessão de patentes e até restringir a remessa de royalties a companhias de países considerados hostis. Na prática, essa mudança coloca o Brasil em uma posição mais assertiva, permitindo que o governo adote medidas equivalentes às de seus parceiros comerciais quando necessário.

No entanto, a adoção de tarifas retaliatórias carrega vantagens e desvantagens para o Brasil. De um lado, essa postura pode aumentar o poder de barganha do país em negociações internacionais, forçando os Estados Unidos e outros parceiros a reconsiderar suas políticas comerciais. Além disso, a possibilidade de resposta imediata pode desencorajar novas medidas protecionistas contra produtos brasileiros, criando um ambiente mais equilibrado para o comércio exterior. Por outro lado, o aumento de tarifas pode desencadear um efeito cascata, elevando os preços de insumos essenciais para a indústria nacional, reduzindo a competitividade das exportações brasileiras e potencialmente afetando setores que dependem de produtos importados. Outro fator a ser considerado é a relação com investidores estrangeiros, que podem enxergar a adoção de medidas de retaliação como um risco adicional para negócios no Brasil.

A questão central agora é a viabilidade da retaliação brasileira e quais setores seriam afetados. Os Estados Unidos, apesar de serem um dos principais parceiros comerciais do Brasil, não são o destino predominante da maioria das exportações brasileiras. Isso significa que, embora o tarifaço de Trump afete setores estratégicos, como o aço e o agronegócio, o impacto geral na economia brasileira pode ser limitado se houver diversificação dos mercados compradores. Além disso, há o risco de que uma guerra tarifária acirre tensões diplomáticas, dificultando futuras negociações comerciais e reduzindo oportunidades de cooperação econômica entre os dois países. O governo brasileiro tem mantido um canal de diálogo aberto com autoridades americanas para buscar alternativas diplomáticas antes de implementar medidas retaliatórias definitivas.

O texto aprovado no Senado agora segue para a Câmara dos Deputados, onde deve ser analisado em regime de urgência. O deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) é cotado para assumir a relatoria do projeto, e a expectativa é que a votação ocorra ainda nesta semana. O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, Pedro Lupion, já sinalizou que o setor agroindustrial apoia a proposta, especialmente diante das preocupações com as novas barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia. A senadora Tereza Cristina (PP-MS), autora do substitutivo aprovado, articulou os detalhes do texto com técnicos do Itamaraty e enfatizou que a legislação não busca intensificar disputas comerciais, mas garantir que o Brasil possa defender seus interesses econômicos de maneira mais eficiente.

A retaliação brasileira, caso implementada, deve mirar produtos estratégicos importados dos Estados Unidos, como bens de tecnologia, químicos e medicamentos, setores nos quais o Brasil poderia adotar taxações sem comprometer diretamente sua própria base produtiva. Outra possibilidade em análise é a imposição de medidas administrativas, como a exigência de certificações adicionais ou a ampliação de inspeções alfandegárias para produtos americanos, o que poderia dificultar sua entrada no mercado brasileiro sem a necessidade de aumento direto de tarifas.

No cenário global, outros países também têm reagido às medidas de Trump. A União Europeia já anunciou um plano sólido de resposta às tarifas americanas, incluindo retaliações específicas a setores-chave da economia dos EUA, como a indústria automobilística e o agronegócio. O Brasil, ao seguir esse caminho, pode se alinhar a outras nações que buscam conter o protecionismo norte-americano e preservar a competitividade de seus mercados. No entanto, é necessário avaliar até que ponto a adoção de sanções comerciais pode gerar impactos adversos para a economia brasileira e até mesmo para os consumidores, que podem enfrentar aumentos de preços em determinados produtos importados.

Enquanto o governo brasileiro busca equilibrar sua resposta ao tarifaço de Trump, empresários e exportadores monitoram atentamente os desdobramentos da legislação. Caso aprovada na Câmara, a Lei da Reciprocidade Econômica representará uma mudança significativa na política comercial do Brasil, permitindo uma atuação mais enérgica em disputas internacionais. Ainda assim, a eficácia das novas medidas dependerá da capacidade do governo de conduzir negociações diplomáticas e evitar que o país seja arrastado para uma escalada de sanções que possa prejudicar sua própria economia.

Fontes:
https://www.cnnbrasil.com.br/politica/pl-da-reciprocidade-economica-ganha-celeridade-apos-manobra-do-senado/
https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2025/04/01/plenario-aprova-projeto-da-reacao-brasileira-a-tarifas-texto-vai-a-camara

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