O novo jeito que a China encontrou para driblar o bloqueio dos EUA

Empresas de inteligência artificial da China encontraram uma solução criativa — e surpreendente — para contornar as sanções impostas pelos Estados Unidos. Diante da proibição de acesso aos chips de alto desempenho da Nvidia, fundamentais para treinar modelos avançados de IA, empresas chinesas estão literalmente contrabandeando HDs carregados de dados até a Malásia.

Segundo fontes do setor, engenheiros chineses embarcaram com 4,8 petabytes de dados — na mala, em voos comerciais — com destino a um data center na Malásia equipado com 300 servidores Nvidia alugados, que seguem acessíveis fora do alcance direto das sanções norte-americanas. Esse volume de dados seria suficiente para armazenar cerca de 60 anos de vídeos em alta definição, ilustrando o tamanho da operação.

O esquema se apoia em uma manobra legal e financeira bastante engenhosa. As empresas chinesas abrem subsidiárias em Singapura, Malásia ou Hong Kong, regiões que, até o momento, não estão sob as mesmas restrições comerciais impostas a empresas chinesas diretamente. Essas subsidiárias assinam contratos internacionais de locação de servidores e serviços de cloud, garantindo acesso ao poder computacional necessário para treinar grandes modelos de IA, sem que o nome da matriz chinesa apareça nas transações.

Esse movimento não é apenas uma estratégia empresarial, mas um reflexo direto do acirramento da guerra tecnológica entre China e Estados Unidos. Desde 2022, Washington impôs sucessivas restrições à exportação de semicondutores avançados, alegando riscos à segurança nacional e tentando frear o avanço da China em tecnologias sensíveis, como inteligência artificial, computação quântica e desenvolvimento militar de ponta.

Porém, na prática, essa operação evidencia que as restrições têm efeito limitado. Se os chips não podem entrar na China, os dados saem da China até onde estão os chips. A logística dos dados passou a ser uma variável crítica na nova dinâmica da geopolítica digital. Além disso, o caso expõe como o ecossistema global de data centers e serviços em nuvem, muitas vezes distribuído entre diferentes jurisdições, permite brechas legais que podem ser exploradas pelas empresas afetadas pelas sanções.

O episódio também escancara a crescente dependência mundial de poder computacional para treinar modelos de IA generativa, visão computacional, processamento de linguagem natural e outras aplicações estratégicas. A corrida por GPUs, chips e data centers se tornou o novo epicentro das disputas econômicas e políticas globais — e evidencia que, no cenário atual, dados e infraestrutura digital são tão ou mais valiosos que petróleo ou commodities tradicionais.

Fonte: The Information – https://www.theinformation.com

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