As importações de produtos chineses pelo Brasil bateram um recorde histórico nos cinco primeiros meses de 2025, levando o governo a ligar um sinal de alerta sobre os impactos no mercado interno. De janeiro a maio, o Brasil importou USD 29,5 bilhões em produtos da China, um aumento expressivo de 26% em relação ao mesmo período de 2024, quando o volume foi de USD 23,3 bilhões.
No mesmo intervalo, as exportações brasileiras para a China recuaram cerca de 10%, o que acende ainda mais o alerta sobre o crescente déficit comercial entre os dois países. Esse avanço nas importações não é isolado. No total, as compras brasileiras no exterior cresceram 9,22% no período, alcançando USD 112,5 bilhões, mas o salto mais expressivo veio justamente da China. Enquanto isso, importações dos Estados Unidos cresceram 9,9%, da União Europeia 4% e, no sentido oposto, as compras do Mercosul recuaram 1,8%.
Entre os itens que mais puxaram esse crescimento estão os insumos químicos, fertilizantes, compostos organo-inorgânicos, defensivos agrícolas, aditivos industriais e bens de capital, como máquinas e equipamentos. Entretanto, o que mais preocupa o governo e setores da indústria nacional são as importações de aço e veículos elétricos, produtos considerados sensíveis para a economia local.
O cenário é agravado pelo impacto da guerra tarifária entre Estados Unidos e China, que vem redirecionando parte da produção chinesa para mercados alternativos, como o Brasil. Contudo, especialistas afirmam que esse não é o único fator. A atividade econômica aquecida no mercado brasileiro, especialmente no setor agropecuário, também impulsiona a demanda por insumos importados. A supersafra de grãos, por exemplo, aumentou significativamente a necessidade de adubos e fertilizantes.
Além disso, uma operação pontual ajudou a elevar os números: a importação de uma plataforma de petróleo vinda da China, no valor de USD 2,7 bilhões, realizada em fevereiro. Esse tipo de movimentação, apesar de não ser recorrente, teve peso considerável no volume total das transações comerciais do período.
De acordo com Matheus Pizzani, economista da CM Capital, o crescimento das importações chinesas no início do ano foi impulsionado sobretudo pelos bens de capital, essenciais para a produção industrial. Já a partir de abril, percebe-se uma tendência de alta também nos bens de consumo final, como automóveis, eletrodomésticos e eletrônicos, fenômeno que pode estar ligado ao impacto da guerra tarifária.
O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, destaca que a redução no preço das commodities permitiu que a indústria chinesa produzisse com custos mais baixos, tornando seus produtos ainda mais competitivos no mercado externo. Segundo ele, a China também tem intensificado a exportação de itens de alto valor agregado, como veículos elétricos e equipamentos tecnológicos, estratégia que deve se consolidar ao longo deste ano.
Já o presidente da Associação Brasileira de Importadores (Abimp), Michel Platini, atribui parte desse crescimento à escalada das tarifas impostas pelos Estados Unidos, que forçou empresas chinesas a buscar novos mercados. Platini lembra que, no início do ano, os custos estavam baixos na China, o que estimulou a produção, mas com o mercado norte-americano praticamente fechado, muitos desses produtos foram direcionados ao Brasil.
O movimento também tem sido impulsionado pelas plataformas de e-commerce internacional, como Mercado Livre, Amazon e Temu, que facilitam o acesso dos consumidores brasileiros a produtos chineses, especialmente dos setores têxtil, utilidades domésticas e eletrônicos. Ainda assim, Platini ressalta que o impacto poderia ter sido ainda maior, não fosse a greve dos servidores da Receita Federal, que vem afetando os desembaraços aduaneiros desde novembro.
Diante desse cenário, cresce a pressão de setores como o automotivo e o siderúrgico para que o governo brasileiro adote medidas de defesa comercial. A Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) tenta, há mais de um ano, convencer o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) a antecipar o aumento da tarifa de importação de 18% para 35% sobre veículos elétricos. Por outro lado, os chineses pressionam pela redução dessas tarifas. Até o momento, nenhuma das demandas foi atendida.
O governo acompanha de perto a situação e estuda alternativas para equilibrar a competitividade da indústria nacional frente ao avanço dos produtos chineses. No entanto, há o desafio de não prejudicar setores dependentes de insumos importados, como a agroindústria e a construção civil. A definição de uma estratégia equilibrada será essencial para evitar impactos negativos na economia brasileira nos próximos meses.
Fonte: O Sul – https://www.osul.com.br