A participação da China nas importações brasileiras atingiu um novo recorde no primeiro semestre de 2025, chegando a 26% do total, segundo dados do Icomex (Indicador de Comércio Exterior) do FGV Ibre. O avanço consolida o país asiático como o principal fornecedor de bens de consumo ao Brasil, à frente dos Estados Unidos, que respondem por 16%. O movimento é reflexo de uma reconfiguração no comércio exterior brasileiro, marcada pela crescente dependência de produtos chineses.
O crescimento nas importações é puxado especialmente pelos bens de consumo duráveis, com destaque para o setor automotivo. Em maio, o porto de Itajaí (SC) recebeu 7 mil carros da montadora chinesa BYD, no quarto desembarque da marca no Brasil só neste ano. A importação de automóveis chineses aumentou significativamente, mesmo com o crescimento tímido das vendas de veículos nacionais. Enquanto os emplacamentos de modelos produzidos no Brasil cresceram 2,6% no semestre, os importados subiram 15,6%, sendo os chineses responsáveis por 6% do mercado.
Mesmo com o aumento das tarifas de importação para veículos elétricos e híbridos — que desde julho passaram a ser taxados em 25% e 30%, respectivamente —, a vantagem competitiva dos produtos chineses permanece. Para algumas montadoras, importar continua sendo mais vantajoso do que produzir localmente. Isso ocorre em meio à guerra comercial promovida pelo governo dos EUA e à estratégia chinesa de buscar novos mercados diante da saturação do consumo interno.
Além dos carros, o avanço chinês se estende a outros setores, como o de eletrodomésticos e eletrônicos. Desde 2021, a China ocupa o topo das exportações de geladeiras para o Brasil, superando fornecedores como Coreia do Sul e México. Também houve crescimento relevante nas importações de celulares, aparelhos de ar-condicionado e outros eletros. No segmento de bens não-duráveis, como os têxteis, o volume importado da China aumentou 40% no semestre, em comparação com 2024.
Embora o volume importado tenha crescido, os valores pagos pelos produtos chineses diminuíram. Segundo o Icomex, os bens de consumo duráveis registraram queda de 18,4% no valor total desembolsado, enquanto os não-duráveis recuaram 2,1%. Essa redução nos preços evidencia o desafio da indústria nacional, que precisa competir com mercadorias estrangeiras mais baratas e em maior escala.
O relatório da FGV ressalta que a redução da participação dos EUA nas importações brasileiras — que era de 23% em 2001 e agora está em 16% — está ligada diretamente ao avanço da China, e não a mudanças específicas na política comercial do Brasil. Trata-se, segundo os analistas, de um processo baseado em mudanças nas vantagens comparativas dinâmicas globais, refletindo transformações estruturais no comércio internacional.
Com essa nova configuração, o Brasil segue ampliando sua dependência de produtos chineses em diversos setores. A indústria nacional, especialmente nos segmentos de automóveis, eletrodomésticos e têxteis, demonstra preocupação diante da concorrência agressiva e da dificuldade de competir em preço. A tendência é de que essa integração comercial com a China continue a se aprofundar, exigindo respostas estratégicas tanto do setor produtivo quanto das autoridades comerciais brasileiras.
Fonte:
https://valor.globo.com/brasil/noticia/2025/07/14/china-avanca-em-bens-de-consumo-e-ja-detem-26-da-importacao-brasileira.ghtml
https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2025/07/produto-chines-bate-recorde-e-ja-representa-26-das-importacoes-do-brasil.shtml